
Na beira da mesa deixei o celular enquanto ajeitava o notebook. Não iria largar dele um só instante, sabia que se fosse ligar, seria hoje. Ou queria que fosse hoje. Não sei mais. Faz tempo que não diferencio o que é do que quero que seja. Começo a atualizar minha vida virtual pelos e-mails pendentes, mas são tão inúteis na sua maioria que o telefone ainda me desvia o olhar e a atençao. Termino com o gmail e abro o bloco de notas na esperança de que aquela página em branco seja preenchida por palavras e esvazie o que vem sobrando em mim.
Principio a digitação e as palavras fluem, desordenadamente mas fluem. Permito que assim seja. Quando dou por mim estou mergulhada em um mar de sentimentos pesados, contraditórios e absurdos. Paro. Começo a chorar e a tela embaça na minha frente. Penso em desistir, não dá para explicar em palavras aquela catarata de sensações que tentei digitar. Levanto e vou ao banheiro passar uma água no rosto e beber uma água para aliviar a garganta. Respiro fundo e decido recomeçar. Leio tudo que digitei, voltam as lágrimas, mas dessa vez sem o desespero anterior. Dou continuidade de onde parei e consigo chegar ao final. Novamente inspiro e fecho os olhos. Sim, fez bem passar por tudo isso. Fez bem chorar. Fez bem deixar sair.
Dou um pulo da cadeira, estava certa sobre ser hoje. O celular toca!
15 de novembro, 2000. A última quarta-feira de nós dois.
Lembro com se fosse ontem, primavera e as flores colorindo nossos caminhos. Tínhamos tido uma noite linda, repleta de galanteios, mãos e bocas. Suor e corpos. Mas não sabíamos que tudo podia dar errado, não sabíamos que daria tudo errado. Caminhávamos sorrindo, como duas crianças que foram presenteadas; sorriamos por nos amar incondicionalmente e porque o nosso para sempre já havia começado. Quase quatro da tarde, sol indo embora e seu sorriso irradiando. Estávamos tão fora do mundo que não havíamos percebido o carro que vinha em nossa direção, não havíamos percebido que ele estava desgovernado e que éramos vitimas fatais. Você estava de costas, eu vi seus olhos sorrindo então pela última vez. Fomos atingidos. Uma pancada forte, um arremesso muito longe e você com traumatismo craniano. Tive apenas uns arranhões. O auxilio médico, as pessoas em volta, o sol que por mais brilhante que estivesse, estava deixando de ter cor para mim, as flores que antes iluminavam e coloriam nossos caminhos, agora como uma coroa medíocre por cima do seu tumulo. Você morto e eu morrendo por dentro. Nossa ultima quarta-feira. E agora, quase doze anos depois, escrevo sobre nós dois, só agora consegui colocar essas vírgulas, só agora que estou me reerguendo aos poucos. Sei que você não gostaria de me ver como estou agora, doente sem você, sentindo sua falta e morrendo a cada segundo, morrendo sem você a cada milésimo que o cronômetro conta.
Tínhamos tudo para acertar, éramos jovens e nos amávamos. Você tinha uma carreira promissora e eu tinha você. Mas o destino fora cruel, e nos impediu do para sempre, nos interrompeu. E agora escrevo sobre nós e sobre a falta que você me faz todo o dia, de como você me tinha e como eu o tinha. Falta, precisão de você. Mas mesmo querendo você aqui comigo, agora é impossível. Sei que deveria ter ficado bem depois de alguns meses, mas me corroeu, me absorveu demais toda essa dor e angustia e falta. Você queria tanto viver, tinha tantos planos e sonhos. Lembro de como você dizia que queria conhecer todos os países, você dizia que queria conhecer todos os países comigo. Fazíamos planos adolescentes, sexo de adultos. Éramos felizes juntos, éramos perfeitos, sem querer uma forma proposital de clichê. Mas morremos numa quarta-feira, digo que, você morreu fisicamente e eu morri na alma, morri sem ter você.
Sua missa de sétimo dia fora o pior dia pra mim, vi sua mãe lá do fundo da igreja, ela não demonstrava nada, não chorava e nem nada dessas coisas, só olhava um vazio, tentando buscar alguma resposta, o porquê de você ter partido tão antes da hora. Já eu, chorava, absurdamente, chorava sem parar, chorava todas as dores da minha vida e de todas as pessoas que ali habitavam. Eram sete dias sem você, eu não havia ficado tanto tempo sem teu toque. Hoje, 14 de novembro, de 2012, terça-feira. Amanhã fará doze anos sem você e mais uma vez choro todas as dores, todos os amores. Choro na verdade todos os dias antes de dormir, na hora de acordar. Porque por mais que eu tente, eu não me acostumo com a ausência de você, das suas palavras e de tudo que você me fazia sentir. Eu não consigo me adaptar, a esse mundo cinza, a essa tecnologia que hoje todos usam. Na verdade eu não me esforço mais para conseguir entender. Porque pra mim nada mais faz sentido, pra mim nada mais tem cor. Queria estar no seu lugar às vezes, mas seria egoísmo meu, lhe deixar assim. Mas eu só queria que você realizasse seus sonhos, vivesse a vida que lhe foi roubada.
Ultima quarta-feira, tivemos muito pouco tempo juntos. Tivemos nem um terço do que esperávamos ficar juntos… Depois de sua morte, não tive mais ninguém, porque todas as vezes que eu tentei seguir em frente eu caia, eu não conseguia. Os sorrisos não eram como o seu sorriso, os olhos não me olhavam do mesmo jeito que os seus me olhavam e as mãos, ah as mãos… Nenhuma delas se encaixava perfeitamente nas minhas como as suas. Nenhum daqueles caras era você. Comecei a fumar, depender de remédios para dormir. Eu perdi a minha cor, me tornei empalidecida, me tornei quase sem alma, digo quase porque, o amor que sinto por você ainda me faz lembrar de quem eu era antes do acidente, me faz lembra de quem eu era, de quem éramos juntos e de como éramos. Agora fico imaginando, se tudo tivesse sido diferente, se aquela não fosse a última quarta-feira, o que teria acontecido? Talvez hoje seriamos desconhecidos e as suas fotos não estariam por todos os cantos do meu apartamento, ou… Você teria me deixado e eu teria uma dor diferente dessa, ainda de perda, porém essa dor viria com um toque de abandono. Porém, eu não ligaria se me abandonasse, não ligaria se m abandonasse, se isso fizesse você feliz, porque eu só queria você sorrindo, mais uma vez, eu suportaria te ver longe de mim, só não suporto não vê-lo mais nem longe e muito menos perto.
Amanhã será minha ultima quarta-feira. Já está tudo planejado, já enderecei a carta para os meus pais, já tranquei as portas e janelas. Agora só espero ir ao seu encontro. Já suportei tempo demais sem você, tempo demais sozinha, invalida de tudo, sem sonhos e expectativas todas quebradas e olhos escassos e alma vazia e peito esburacado e cérebro sem ondas cerebrais saudáveis. E minhas mãos sem suas mãos e eu sem você. Amanhã, não irei me suicidar, apenas terminarei aquilo que foi iniciado há doze anos, irei me libertar da dor, do sofrimento, angustia e sangue e tudo que me sufoca. Irei terminar de morrer, só que dessa vez por fora. Sempre tive esse lado perigoso do ser humano, esse impulsivo e suicida que nenhuma outra pessoa, a não ser você, foi capaz de curar.
Não agüento mais um segundo, foram doze anos, doze anos de dor. E agora quero ir pra você. Nossa ultima quarta-feira foi tão colorida e a minha última quarta-feira será cinza. Ultima quarta-feira, porém, para sempre nós dois.